Menu

Esportes Abril Indígena: 2º campeonato de futebol do povo Suruí começa nesta terça, em RO; ‘Integração de sociedades’

Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) — “Esse é o momento em que as portas das nossas aldeias estarão abertas para toda a população; uma integração de sociedades”. Foi com essas palavras – apostando em um discurso inspirador, a fim de desarmar velhos preconceitos – que o presidente do comitê organizador do 2º Campeonato Indígena de Futebol Society Naraikosar Julio Paiter Suruí, Celso Lamitxab Suruí, categorizou a carga trazida pelo evento à população de Rondônia e o exemplo a espelhar Brasil afora. A  cerimônia de abertura está prevista para esta terça-feira, 19, na Aldeia Joaquim, localizada a 37 quilômetros de Cacoal, no interior de Rondônia; uma das 28 comunidades integrantes da Terra Indígena (TI) Sete de Setembro. 

À frente do emblemático evento esportivo para os povos tradicionais do Estado, Celso Suruí garante que não haverá distinção de qualquer pessoa, “seja ela quem for”. “Podem vir prestigiar quem tiver curiosidade de assistir aos jogos: indígenas de outras etnias e até mesmo as pessoas não indígenas. Quem vive aqui na nossa região, na zona rural, no município de Cacoal e até em outras cidades”, ressaltou, em entrevista à CENARIUM

Com a volta do torneio, que ficou pausado por dois anos devido à pandemia de Covid-19, a organização espera um público superior a 1.000 espectadores. A entrada é gratuita.

O atual presidente do comitê organizador do campeonato de futebol indígena, Celso Lamitxab Suruí (Reprodução/Acervo Pessoal)

Os jogos

Serão quase três meses de evento, com 12 jogos a cada fim de semana. Todos realizados entre oito aldeias diferentes do Povo Paiter Suruí. Ao todo, 26 times indígenas já estão confirmados, sendo 19 masculinos e outros sete compostos integralmente por mulheres. “Esse é outro ponto positivo: a integração e valorização feminina no esporte”, aponta Lamitxab Suruí. 

O campeonato é uma homenagem a Naraikosar Júlio Suruí; daí o nome do evento esportivo. Júlio, que foi um grande incentivador do esporte nas aldeias, faleceu há pouco mais de três anos, vítima de complicações de uma cirurgia. A morte dele causou grande comoção entre os “parentes”, como se chamam carinhosamente. Um triste fato ocorrido poucos meses antes do start da primeira edição do evento idealizado pela jovem liderança. Mesmo assim, o legado seguiu adiante, por meio de seu povo, a partir do ano seguinte, em 2019.

Povo Paiter Suruí leva o legado de Naraikosar adiante, promovendo novas edições do campeonato (Celso Suruí/Acervo Pessoal)

“Como eu era o vice dele, eu assumi essa responsabilidade. Ele foi um grande defensor do esporte e nós seguimos com essa missão. Por outro lado, isso é muito triste, mas a vida é dessa forma. O mais importante é manter o esporte vivo e homenageá-lo”, disse o atual presidente do comitê organizador.

Unidos pelo esporte

Os Paiter Suruí formam uma população de quase 2 mil indivíduos habitantes de um território de aproximadamente 250 mil hectares. Na avaliação de Celso, para eles, o campeonato é uma questão de saúde. Já para quem vem de fora, a possibilidade de conhecer, refletir e aprender sobre o respeito. 

“Um dos pontos positivos que nós, Povos Indígenas, vemos como resultado do esporte é a união. A união entre todos nós, entre as lideranças, entre as comunidades, entre as crianças (…) inclusive, quando a gente realiza esse evento, todas as nossas 28 aldeias elevam as expectativas ao máximo pela participação. É união e interação para assistir aos jogos, além da possibilidade de construção de novas amizades. É bom para nós e para os atletas. É bom para a nossa saúde física e mental”, detalhou.

Segundo o líder indígena, “a presença das pessoas de fora é muito importante”, pois, como ele próprio diz, “muitas delas enxergam os indígenas de forma diferente, preconceituosa”. “Por isso, esse é o momento ideal para que elas venham até a nossa aldeia, assistam a esse evento esportivo e conheçam a nossa realidade”, acrescentou Suruí.

Ele confirma: “Escolhemos o dia 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, justamente, para promover a integração com a sociedade. Eu fico na expectativa de que as pessoas compareçam hoje, que será um grande dia para nós”, disse ainda.

Jogadores representantes das aldeias participam das cerimônias de abertura caracterizados com adornos e pinturas tradicionais (Celso Suruí/Acervo Pessoal)

Campeonato ‘pós-pandemia’

É fato que a emergência sanitária causada pelo Sars-Cov-2 ainda não terminou por completo ao redor do planeta, mas outra expectativa é ‘reunir a galera’ em campo – e em volta dele – para o campeonato.

“Hoje mesmo [segunda-feira, 18], estão todos os moradores das aldeias se preparando, fazendo as pinturas corporais. Até as crianças estão se pintando com a nossa pintura tradicional. Não é apenas uma festa. É o significado de alegria e de harmonia. Vai trazer paz no coração de toda a comunidade”.

Premiações do campeonato

Por enquanto, a premiação é simbólica: troféus e medalhas. Celso revela que o único apoio para a execução do campeonato veio da Autarquia Municipal de Esportes de Cacoal (Amec). A pasta também vai ceder equipes de árbitros para ‘apitar’ os jogos, além de materiais como bolas e equipes de servidores para auxiliar nas atividades.

Neste ano, o campeonato conta com sete equipes compostas integralmente por mulheres (Celso Suruí/Acervo Pessoal)

“Queríamos dar premiação em dinheiro, mas ainda não conseguimos uma pessoa ou uma empresa que pudesse doar. Ainda estamos à procura de quem possa nos apoiar com a premiação”, revelou Celso Lamitxab Suruí.

“De qualquer forma, esse campeonato está movimentando as comunidades indígenas e o próprio município de Cacoal, gerando benefícios locais”, finalizou.