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Cultura Corpo do poeta e escritor amazonense Thiago de Mello é enterrado em Manaus

Artistas do Amazonas e autoridades acompanharam o enterro do poeta (Bruno Pacheco/ Cenarium)

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS — Em um caixão branco, cor pela qual originou o verso de seu poema mais famoso, intitulado ‘Os Estatutos do Homem’, e que era apaixonado desde a infância, quando não podia comprar roupas mais claras por serem ‘artigos de luxo’, o poeta Thiago de Mello foi sepultado neste sábado, 15, no Cemitério São João Batista, em Manaus, em funeral marcado por homenagens da família, amigos e personalidades da cultura amazonense.

Tal como ele escreveu em seu poema publicado em 1977 e traduzido para mais de 30 idiomas, “fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida o uso do traje branco”, Amadeu Thiago de Mello, que faleceu nessa sexta-feira, 14, aos 95 anos de idade, se junta à eternidade e deixa o legado de ser o ‘poeta da floresta’, sendo a maior figura da área no Estado do Amazonas e um dos maiores do Brasil.

O amigo e também escritor Tenório Telles lembrou um dos versos do poeta. “O Thiago colocou a vida a serviço da própria vida quando ele diz: ‘pois aqui está a minha vida pronta para ser usada. Vida que não se guarda e nem se esquiva assustada. Vida sempre a serviço da vida para servir ao que vale a pena e o preço do amor’. Aqui está o homem que serviu à vida. Vá em paz meu amigo, e obrigado pela sua presença e pela sua poesia”.

Marco Apolo, titular da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC-AM), também esteve presente e falou da importância do poeta para a cultura amazonense: “Thiago de Mello deixa uma lacuna irreparável na história da cultura do nosso Estado. Ele é uma autoridade da cultura. Rompeu todas as barreiras e conquistou o mundo por meio da sua obra. Parte Thiago de Mello, mas certamente sua obra fica”, lamentou.

Emocionado, o filho do poeta, que também se chama Thiago de Mello, o Thiaguinho, disse que chegou há três semanas a Manaus. Ele conta sobre o que chamou surpreendente “a passagem” do poeta. “Fica uma grande lição de amor à vida e comprometimento à poesia. Meu pai foi um trabalhador incansável da palavra falada e escrita, sempre movido por uma espécie de fé inabalável. Ele fez isso de uma maneira sublime, sem perder a surpreendente alegria em tudo que ele fez. Essa é a lição que fica, de poesia, alegria, liberdade, comprometimento, ternura e justiça social. Vim de Barreirinha e cantei na véspera da sua passagem por uns 30 minutos e essa foi nossa despedida. Agradeço muito que eu tenha conseguido fazer essa espécie de despedida”, lembrou.

Vida e obra

Natural de Barreirinha (a 372 quilômetros de Manaus), onde nasceu em 1926, Thiago de Mello desbravou o mundo com sua escrita. Chegou a morar na Áustria, Alemanha, França, Chile e Argentina. No Brasil, além de sua terra natal, viveu no Rio de Janeiro, mas nunca escondeu a paixão de residir no Amazonas, onde viveu os últimos anos em dedicação à proteção da floresta.

O poeta teve sua estreia na literatura em 1951, com o livro ‘Silêncio e Palavra’. Entre as obras de destaque está ainda ‘Os Estatutos do Homem’, de 1964, em que o poeta traz os valores simples da natureza humana, assim como ‘Narciso Cego’, de 1952; ‘A Lenda da Rosa’, de 1956; ‘Poesia comprometida com a minha e a tua vida’, de 1975; ‘Horóscopo para os que estão Vivos’, de 1984; ‘Mormaço na Floresta’, de 1984; ‘Num Campo de Margaridas’, de 1986; e ‘De uma Vez por Todas’, de 1996.