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Meio Ambiente Desmatamento, agronegócio e o avanço de mineradoras aumentam risco de genocídio da etnia Piripkura

A grave e urgente situação foi apresentada, em um relatório, pelo Instituto Socioambiental (ISA) (Reprodução)
Iury Lima – Da Agência Amazônia

VILHENA (RO) – O fogo e o desmatamento abrem caminho para a invasão do agronegócio sobre terras que deveriam ser protegidas pelo governo federal, no Estado de Mato Grosso. Isso é o que vem agravando, ainda mais, o risco de genocídio de uma etnia já praticamente dizimada: os indígenas Piripkura

A grave e urgente situação foi apresentada, em um relatório, pelo Instituto Socioambiental (ISA), mostrando a negligência da Fundação do Nacional do Índio (Funai) no processo de demarcação da Terra Indígena (TI) e como os invasores aproveitam a fragilidade da proteção improvisada, feita com Portarias de Restrição de Uso, para perpetuar o avanço do crime ambiental dentro e às margens da reserva. 

O território fica entre os municípios de Colniza e Rondolândia, ambos distantes mais de mil quilômetros de Cuiabá. 

Relatório aponta que sete milhões de árvores foram derrubadas desde o ano passado, dentro da TI (Rogério Assis/ISA/Reprodução)

Avanço devastador

A Terra dos Piripkura, com mais de 240 mil hectares, ainda não foi demarcada e o que protege o grupo é o conjunto de portarias de Restrição de Uso, editadas pela Funai. Desde o início do Governo Bolsonaro, os invasores avançam sem reação oficial e, segundo o ISA, o aumento das atividades ilegais coincide com o fim da validade desses dispositivos, que são renovados a cada seis meses. A portaria que está em vigor, por exemplo, expira em setembro. 

O levantamento do ISA reúne constatações feitas a partir de imagens de satélite. Só entre 2021 e 2022, os invasores desmataram mais de 12 mil hectares de vegetação para a exploração agrícola. É como se 7 milhões de árvores tivessem sido derrubadas. Depois do campo aberto, a principal destinação da terra é a criação de gado.

A foto revela uma fazenda instalada dentro da TI dos Piripkura; uma das várias que surgiram – e que vêm sendo denunciadas – desde 2021, num processo acelerado de invasão, promovido pelo intenso desmatamento (Rogério Assis/ISA/Reprodução)

O monitoramento mostra que a destruição continua e que, no início de julho deste ano, a queimada sistemática de florestas começou a transformar o verde em cinzas. A ideia é aproveitar o clima seco, doravante, para abrir novas áreas – de baixa produtividade –  para a boiada passar. Ou seja, um disfarce para a grilagem.

E, como se abertura de áreas dentro da TI não bastasse, uma nova frente de exploração e especulação avança; só que dessa vez, às margens da área protegida, com uma explosão de requerimentos minerários para a exploração de ouro. Quase 20 mil hectares de terra requeridos para o garimpo foram cadastrados do último ano para cá, na Agência Nacional de Mineração, segundo o Instituto Socioambiental.

Mapa mostra o avanço de empresas mineradoras aos arredores da TI Piripkura, em Mato Grosso (ISA/Reprodução)

“Se você observar os pedidos ocorridos desde 2018, vai observar que existe um mapa desses pedidos no entorno da Terra Indígena”, disse o ex-coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, Elias Bigio, à AGÊNCIA AMAZÔNIA. “As empresas estão criando uma reserva de mercado, é isso que nós estamos entendendo”, apontou.

Genocídio iminente

As organizações da sociedade civil, como o ISA, levam, por meio dessas denúncias, a voz de quem já não pode mais nada fazer, a não ser sobreviver. Restam apenas três Piripkura. Dois deles, tio e sobrinho, conhecidos pelos nomes de Pakui e Tamandua, vivem isolados no território.

Já a terceira remanescente, Rita, vive com os indígenas Karipuna, em Rondônia, depois de casar-se com um deles e ter fugido de sua terra natal pelo medo da morte à bala de madeireiros garimpeiros.

Tio e sobrinho, Pakui e Tamandua são os últimos remanescentes Piripkura, conhecidos, que vivem isolados dentro da reserva (Reprodução)

“Existem diversas fazendas instaladas sobre aquele território e, ao longo desses anos, o que vimos foi o quase extermínio desse povo”, disse o ex-coordenador da Funai. 

Bigio conta que o Povo Piripkura foi contatado oficialmente pela Funai, na década de 1980 e que, agora, 42 anos depois, estão na mira do completo desaparecimento. “Existe o risco de extermínio desse povo, sim. A pressão é muito grande”, afirmou o indigenista, que agora faz parte da ONG Amazônia Nativa (Opan), uma das instituições por trás da Campanha Isolados ou Dizimados, que acompanha, entre outros povos, o Piripkura. 

Para o indigenista da Opan, Elias Bigio, a Funai é omissa na demarcação de Terras Indígenas (MidiaNews/Reprodução)

É preciso proteger

A Funai não reconhece nenhum outro remanescente dos Piripkura, além de Pakui, Tamandua e Rita. Mas, para Elias Bigio, pode haver uma população muito maior, vivendo mata adentro, resistindo ao contato com o homem não indígena. 

“Essas pessoas [os invasores] podem estar, sim, achando que só existem os três. Mas não, não existem só eles. Existe a possibilidade de ter outros. E, independentemente de serem poucos, é um território indígena e, veja, apesar dessa pressão toda, eles não deixaram de ser Piripkura. Eles se mantiveram no seu território, vivendo de forma tradicional. Eles não se integraram como trabalhadores de fazenda, pelo contrário, mantiveram estratégias de fuga da pressão que eles estão vivendo. Eles vivem há mais de três décadas fugindo dessa pressão, da madeira, das fazendas que instalaram ali dentro”, declarou o indigenista. 

Para garantir a sobrevivência da etnia, é preciso aumentar a presença do Estado sem ferir a decisão dos indígenas de se manter isolados dentro da TI.

“E é isso que temos de garantir a esses povos: a autodeterminação deles, porque a experiência da maioria desses povos, de contato com a sociedade não indígena brasileira, foi nefasta, devido às frentes de expansão”, avaliou Elias Bigio.

Ele também vê na demarcação, uma solução. Uma ação mais potente do Estado, na avaliação dele. “Os estudos de demarcação são da década de 1980, mas a Funai não cumpriu o papel dela”, lamentou. “E cabe ao Estado brasileiro. A própria Funai reconhece esse direito de garantir o território desses povos para que eles possam viver bem, viver com segurança e, de acordo com a Constituição federal, poder se reproduzir física e culturalmente”, concluiu o indigenista da Opan. 

Documentário conta a história dos Piripkura; veja