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Meio Ambiente Desmatamento na Amazônia: primeiro semestre foi o mais severo em 15 anos, aponta Imazon

Essa destruição é resultado de recordes sucessivos, registrados mensalmente pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) (Reprodução)
Iury Lima – Da revista Cenarium

VILHENA (RO) – O desmatamento ocorrido em junho deste ano, na Amazônia, selou o pior semestre dos últimos 15 anos para o bioma. É como se a capital de Tocantins, Palmas, a nona maior do Brasil, fosse retirada duas vezes do mapa, pois a derrubada de floresta se alastrou, nesses primeiros seis meses, por 4.789 km².

Essa destruição é resultado de recordes sucessivos, registrados mensalmente pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), como o que foi registrado no mês passado: 1.429 km² em apenas 30 dias; um aumento de 54% quando comparado com o mesmo período em 2021.

“E esse aumento, infelizmente, está atrelado a uma série de consequências ruins, como o agravamento das mudanças climáticas, que contribuem com desequilíbrio no regime de chuvas em todo o Brasil, assim como a emissão de gases de efeito estufa que acarreta um aumento na temperatura global”, alertou a Pesquisadora do Imazon, Bianca Santos, à reportagem. 

Pará, Amazonas e Mato Grosso lideraram o avanço do desmatamento no mês passado (Bruno Kelly/Reprodução)

Desmatamento acumulado

Além deste ser o pior registro de destruição da Floresta Amazônica desde 2008, o acumulado do semestre é quase 20% mais elevado que o registrado em igual período do ano anterior. O Imazon aponta que, mesmo naquela época, a Amazônia já sofria com “uma explosão de desmatamento”.

Valor registrado nos primeiros seis meses de 2022 é o maior da série histórica (Fonte: Imazon | Arte: Mateus Moura/REVISTA CENARIUM)

Só na primeira metade deste ano, a Amazônia perdeu uma área maior que Florianópolis, em comparação com a devastação ocorrida no primeiro semestre de 2021, quando foram derrubados 4.014 km² de mata. Em 2020, foram 2.582 km². A tendência para o aumento é tão evidente, que o valor registrado agora, em 2022, é quatro vezes mais do que foi devastado no início desta série histórica.

Junho devastador

Junho, sozinho, também foi devastador. O desmatamento avançou sobre 1.429 km² apenas no mês passado; área semelhante à grande São Paulo. Com esse alcance, a exploração de recursos da floresta aumentou 54% em comparação a junho de 2021. 

Devastação ocorrida em junho equivale quase a uma cidade de São Paulo inteira (Fonte: Imazon | Arte: Mateus Moura/REVISTA CENARIUM)

Assim como foi o primeiro semestre, a Amazônia teve, também, o pior junho dos últimos 15 anos. Santos explica que as regiões mais críticas, durante aquele mês, estiveram no Pará, Amazonas e Mato Grosso. “No Amazonas, a situação mais crítica acontece ao sul do Estado, principalmente na divisa com o Acre e Rondônia, onde existe um polo agropecuário conhecido como Amacro”, detalhou a pesquisadora ao citar a área conhecida por ser uma fronteira do desmatamento. 

“Os municípios dessa região, como Apuí, por exemplo, têm aparecido com frequência nos rankings mensais dos que mais desmatam a floresta”, diz ainda. “No Estado do Pará, que liderou o desmatamento em junho, a situação é ainda mais preocupante, porque muito desse desmatamento aconteceu em áreas protegidas, como Unidades de Conservação e Terras Indígenas”, acrescentou. 

A pesquisadora do Imazon, Bianca Santos, alerta para os riscos gerados pelo desmatamento a comunidades tradicionais (Imazon/Reprodução)

A Terra Indígena (TI) Apyterewa, com mais de 700 mil hectares e população de quase 800 pessoas, concentrou 52% de todo o desmatamento flagrado por satélite dentro de TIs, em todo o bioma: 1.400 campos de futebol de mata intocada foram abaixo, segundo o Imazon. O território fica no Pará, que destruiu 497 km², ou seja, 35% de tudo aquilo que foi explorado um mês atrás. 

Abaixo do Pará, estão o Amazonas, com 29% da destruição e, Mato Grosso, com 13%. Este último vem se mantendo desde outubro de 2021 entre os três Estados que mais desmatam a Amazônia, de acordo com os levantamentos do instituto. Amapá e Tocantins não apareceram na lista.

Mato Grosso é recordista em desmatamento desde outubro do ano passado (Fonte: Imazon | Arte: Mateus Moura/REVISTA CENARIUM)

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Ainda pode piorar

Apesar dos tristes indicadores, tudo pode piorar, mais ainda, segundo a pesquisadora Bianca Santos. “Infelizmente, a tendência para o segundo semestre é de que o desmatamento continue em ritmo acelerado na Amazônia, pois temos ainda pela frente mais quatro meses do período seco, que é conhecido como o verão amazônico. Isso acontece porque a derrubada da floresta acaba sendo mais facilitada com a diminuição das chuvas e, também, as queimadas”, apontou. 

Além do clima, agora, mais favorável para os crimes ambientais, ela indica, também, a corrida eleitoral de outubro como um agravante. “Outro fator que também contribui para a tendência de alta do desmatamento no segundo semestre é a realização das eleições, quando, historicamente, as ações de fiscalização costumam diminuir”, afirmou a pesquisadora.

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Para Larissa Amorim, também pesquisadora do instituto, existe ainda um terceiro componente negativo: a falta de sinalização dos órgãos competentes de que haverão ações mais duras de combate aos crimes ambientais nos últimos seis meses do ano. “Isso funciona como incentivo para que os desmatadores ilegais sigam atuando na região, principalmente através do processo de grilagem de terras”, diz a especialista.

Larissa Amorim cobra posição dos órgãos fiscalizadores no segundo semestre de 2022 (Imazon/Reprodução)

Para barrar a destruição da maior floresta tropical do planeta, tão importante para a regulação do clima global, é necessário fortalecer os órgãos fiscalizadores, alerta Santos. “É preciso, também, garantir a aplicação de punição aos desmatadores ilegais, utilizando imagens de satélite como provas em processo de crimes ambientais”, concluiu.

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