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Sociedade ‘Dia da Mulher’: pesquisa aponta que mulheres ativistas são mais propensas a sofrer violências

A pesquisa está disponível no site do Instituto (Arte: Isabelle Chaves/ CENARIUM)

Malu Dacio – Da Revista Cenarium

MANAUS — O Instituto Igarapé realizou uma pesquisa inédita que apontou que oito em cada dez defensoras de direitos e do meio ambiente já sofreram algum tipo de violência na Amazônia brasileira (Veja infográfico ao final da matéria). As informações foram divulgadas por meio do infográfico ‘Vitórias-régias na proteção dos direitos humanos e do meio ambiente’, no dia 1º de fevereiro desse ano.

De forma inédita, a pesquisa realizada em formato online procurou ambientalistas do gênero feminino. De 125 mulheres que se consideram defensoras, 100 já sofreram algua forma de violência. Participaram da pesquisa defensoras dos Estados do Acre, Amazonas, Maranhão, Pará e Roraima. No total, 132 mulheres responderam ao questionário. O material está disponível no site do Instituto.

A pesquisa diz que as cinco principais categorias de violência exposto pelas mulheres que participaram da pesquisa são: violência moral (27% do total de registros), violência física pessoal (19,7%), ameaça pessoal sem uso de armas (14,2%), violência psicológica (10,8%); e violência ou ameaça contra familiares (9,5%).

Com 63%, a maioria das mulheres que sofreram violência e participaram da pesquisa são mulheres negras. Seguindo o quantitativo, 41% são pardas e 23% são indígenas. Na pesquisa, 12 mulheres disseram ter sofrido violência de mais de um agressor, mas desconhecidos representam a maior fatia do número de agressores, tendo sido apontados como autores de 32 casos (ou quase 30% do total).

Vozes necessárias não podem ser caladas

A presidência da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé é de responsabilidade e voz potente de Ivandeide Bandeira Cardozo, ou Neidinha Suruí. À REVISTA CENARIUM, a ambientalista criticou a gestão política dos poderes em relação às questões ambientais e que isso prejudica e fragiliza a atuação de mulheres nesta luta.

Neidinha Suruí é presidente da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé. (Reprodução)

“Alguns políticos colocam em risco a Mãe Terra, com seus arsenais bélicos, promovendo guerras e colocando em risco a existência na terra e a vida de milhares de pessoas. A voz das mulheres em defesa do equilíbrio climático e da paz são fundamentais para que os humanos e a natureza continue existindo”, salientou a líder indígena.

“Essas vozes precisam ser ouvidas, os desastres ambientais alertam para a crise que vivemos e o quanto a vida na terra se encontra em perigo. Fazer a voz da mulher ecoar em todos os cantos do planeta, se faz necessário e urgente. Viva a paz! Viva a natureza!”, pediu.

Amazônia para o mundo

Aos 25 anos, Txai Suruí é estudante de Direito da Universidade Federal de Rondônia (Unir), coordenadora e assessora jurídica da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, criadora do movimento Juventude Indígena de Rondônia e ativista pela preservação do meio ambiente e pelos direitos dos povos originários do País.  

Ela é filha de um dos mais influentes líderes indígenas da atualidade, o cacique-geral do Povo Paiter Suruí (escolhido pela maioria dos quase 1.800 habitantes da Terra Indígena 7 de Setembro, por meio do voto), Almir Suruí, e da indigenista e presidente da Kanindé, Ivaneide Bandeira Cardozo.

Txai Suruí foi chamada de ‘Voz Mundial da Amazônia’, no Prêmio Hugo Werneck de Meio Ambiente, Sustentabilidade & Amor. (Nadja Kouchi)

Na língua indígena Kaxinawá, o nome de batismo da ativista, Walelasoetxeige Suruí, é carregado de significados poderosos, tais como: “mulher inteligente”, “gente de verdade”, “mais que amigo”, “mais que irmão”, entre outros. 

Aos 6 anos de idade, Txai foi anunciada pela família como uma futura grande líder, legado que ela tem carregado, seguindo os passos de Almir.

A ativista rondoniense diz que a luta das mulheres pelas florestas e pelo direito dos povos indígenas acontece e é tão importante porque é uma luta pela vida. “As mulheres que lutam pela floresta, por uma floresta em pé, lutam também pelas suas comunidades, pelos seus filhos, pelo seu território principalmente, pela sua família e luta pela vida mesmo. A gente que é da Amazônia sabe da importância para o mundo”, declarou à REVISTA CENARIUM.

Txai defende que a luta pelas florestas e a defesa dos direitos ambientais são essenciais para a vida do planeta. “Com tantas coisas acontecendo no mundo, a gente meio que esqueceu que ainda estamos sofrendo e passando por uma crise climática. Não é só uma crise política e as mulheres estão num levante durante toda essa crise, dando exemplos de como a gente pode e consegue construir um mundo melhor”, disse.

Apesar da pouca idade — mas muita luta —, a jovem e promissora liderança desenha com palavras o seu mundo. “Um mundo onde as mulheres sejam livres. Um mundo onde as mulheres possam olhar tranquilamente na rua. Um mundo onde os nossos filhos não estejam sofrendo com garimpo”, finalizou.

Das 125 mulheres que se consideram defensoras, 100 disseram ter sofrido algum tipo de violência. (Reprodução)

*Colaborou Iury Lima