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Sociedade Em áudio, Bruno Pereira já alertava sobre ‘política anti-indigenista’ do presidente da Funai

Bruno de Araújo Pereira, indigenista assassinado na Região Amazônica (Reprodução)
Ívina Garcia – Da Agência Amazônia

MANAUS – Em áudios compartilhados com o colunista da Veja, Matheus Leitão, o indigenista Bruno Araújo Pereira, 41, assassinado em Atalaia do Norte no início do mês de junho deste ano, relatava aparelhamento na Fundação Nacional do Índio (Funai).

Na época dos relatos do indigenista ao jornalista da Veja, a Coordenação de Índios Isolados da Funai ficava sob a responsabilidade de Ricardo Lopes Dias, figura que causava grande insatisfação aos indígenas e funcionários da fundação durante os 9 meses que atuou à frente do órgão. Em áudio, o ativista chegou a citar até mesmo o nome da pastora e ex-ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves e sobre o presidente da instituição Marcelo Xavier.

Na Funai, ele [Ricardo Lopes Dias] é motivo de chacota. Quem segura ele é a bancada evangélica, junto com a Damares, né? E já estava se construindo um bombardeio danado na questão dos índios isolados. [Ele] não sabe nem como lidar”, relatou Bruno.

Bruno Pereira era reconhecido por defender pautas indígenas (Reprodução)

Apoio ruralista

Há três anos à frente da Funai, Xavier possui grande apoio da bancada ruralista que, inclusive, elogiou a atuação do órgão nas buscas por Bruno Araújo Pereira, 41, e o jornalista Dominic Mark Phillips, 57. Para Bruno, essa relação não era desconhecida. O indigenista chegou a comentar com o jornalista Matheus Leitão a insatisfação de Xavier com o então coordenador Ricardo Lopes.

E eu acho, aqui de bastidores também, que ele não entrega o que o presidente [Marcelo Xavier] quer, os produtos que o presidente quer. O presidente é ligado aos ruralistas, né? E aí entram os empreendimentos, assim assado, não é? Então, o cara [Ricardo Lopes Dias] está ‘sobrecabo’”.

Ouça:

Marcelo Xavier

O atual presidente da Funai tomou posse em julho de 2019 e, desde então, vem recebendo críticas por parte de lideranças indígenas e associações, isso porque as políticas adotadas por Xavier vão de encontro às necessidades dos povos indígenas. Ele, inclusive, coleciona inúmeros pedidos de investigação contra defensores de pautas ambientais.

Nesta terça-feira, 21, servidores da Funai estiveram na frente do órgão, em Brasília, realizando protesto contra o atual presidente e pedindo a saída dele do cargo. A INA (Indigenistas Associados – Associação de Servidores da Funai) publicou, no último dia 13, um dossiê intitulado “Fundação anti-indígena: um retrato da Funai sob o Governo Bolsonaro”, onde eles alegam que sob o comando do delegado Xavier “a estrutura da Funai passou a servir, principalmente, a interesses anti-indígenas, em desrespeito à missão institucional do órgão”.

No dossiê, a INA acusa Xavier de corroborar com as políticas de abertura de terras indígenas demarcadas para a exploração de terceiros. “[Marcelo] propagandeia-se como gestor da ‘Nova Funai’, que estaria baseada no tripé da promoção da ‘segurança jurídica’, ‘pacificação dos conflitos’ e ‘dignidade e autonomia indígenas’, o que se traduz, no entanto, em colocar a instituição para trabalhar pelo enfraquecimento das garantias territoriais indígenas e pela abertura das TIs à exploração econômica por terceiros”, escreve.

Leia o dossiê completo:

Servidores ameaçados

Já é o terceiro companheiro que a gente perde”, relata Guilherme Martins, servidor da Funai. Em entrevista à REVISTA CENARIUM, o funcionário do órgão teceu críticas contra o atual presidente, Marcelo Xavier, e afirmou que o delegado “não tem a dignidade moral para ocupar o cargo de presidente da Funai“.

Ao invés de garantir segurança aos servidores, o presidente vem perseguindo e criminalizando não só o Bruno. Já é o terceiro indigenista da Funai que morre em decorrência direta do seu trabalho em campo. Já é o terceiro companheiro que a gente perde“, comenta.

Para Guilherme, o atentado contra Dom e Bruno é um crime político, fruto da omissão do Estado brasileiro na atual gestão do governo federal. “Se o presidente Marcelo Xavier tivesse ouvido toda uma série de denúncias, uma série de relatórios, uma série de pedidos, de solicitação dos servidores, principalmente, dos servidores que atuam na área de proteção territorial, clamando por mais segurança, isso poderia ter sido evitado“, relata.

Assim como outros indígenas, servidores e lideranças já relataram, Guilherme diz viver com medo, tanto das ameaças por parte dos invasores, quanto pela ausência do Estado. “Então, a gente tem que lutar contra os criminosos ambientais e contra os dirigentes dessa atual gestão da Funai que também estão nos perseguindo e nos criminalizando, enquanto fazemos o nosso trabalho. É muito triste, é muito difícil e é por isso que a gente não aguenta mais”, relata.

Na visão dele, a atual gestão não tem experiência e “cacife” para liderar um cargo tão importante e que lida com vidas. “Nós, servidores da Funai, a gente presta serviços para os indígenas. Se os indígenas estão mobilizados, nacionalmente, pedindo a exoneração do presidente da Funai, é porque fica claro que a Funai não está atendendo aos interesses dos próprios povos indígenas“, e continua afirmando que é necessário “uma pessoa sensível, um indigenista, uma pessoa formada na área para fazer esse trabalho intraespecífico que é o indigenismo de Estado. E o que a gente encontra é alguém que não tem a menor experiência, o menor preparo para lidar com a questão indígena. E mais, não tem, como eu disse, o mínimo de dignidade moral“, finaliza Guilherme.

Tráfico de drogas

Bruno e Dom já haviam viajado juntos, em 2018, pelo mesmo percurso no Rio Itaquaí, próximo à reserva indígena Vale do Javari, onde o indigenista realizava trabalhos para Univaja no fim de maio.

A área onde aconteceu o crime é de floresta densa e caminhos fluviais perigosos No local, existem 26 povos indígenas, alguns isolados e outros de recente contato. Localizada na tríplice fronteira, Brasil-Peru-Colômbia, a região possui a constante presença do narcotráfico e da pesca ilegal que se retroalimentam.

O tráfico de drogas, hoje, está interligado com diversos outros crimes, não só a pesca ilegal, mas também com o garimpo ilegal, a lavagem de dinheiro e diversos outros crimes que acabam financiando o próprio tráfico de drogas e vice-versa”, afirma o chefe da Delegacia de Repressão a Drogas da Polícia Federal, Victor Motta, em entrevista à REVISTA CENARIUM.

Ele explica que o tráfico de drogas, no Amazonas, sobretudo, nas áreas afastadas do centro urbano, se diferencia por não usar estradas, como ocorre no resto do País, mas pelos rios.

A fiscalização de uma rodovia é bem mais simples do que a fiscalização de um rio, tamanha a extensão das nossas bacias hidrográficas. E existe, principalmente, a dificuldade de logística para isso”, diz.

Última operação da PF apreendeu 1,3kg de drogas em fundo falso de barco no Amazonas (Divulgação)

Motta afirma que os traficantes se aproveitam da imensidão do Estado para intensificar os delitos, principalmente, nos locais de difícil acesso, onde o tráfico se interliga com outras esferas criminais, mas que mesmo assim, a atuação da Polícia Federal segue focada em desarticular essas quadrilhas.

Somente a Polícia Federal apreendeu mais de 5 toneladas de entorpecentes, em 2022, no Amazonas, e prendeu cerca de 50 pessoas por tráfico, então, a PF é bem focada nas lideranças dessas organizações criminosas e nas pessoas responsáveis pelo tráfico em nosso Estado”, conta.

Defensor da causa

Bruno era conhecido pelo engajamento em pautas indígenas e atuou como coordenador-geral de índios isolados e de recém-contato (período em que esteve à frente de uma das maiores expedições de contato com índios isolados dos últimos 20 anos), ficando no cargo até outubro de 2019, quando foi exonerado por Xavier, por “perseguições políticas” dentro da própria Funai, segundo a Univaja.

O indigenista vinha sofrendo pressão e ameaça por parte dos garimpeiros, madeireiros e ruralistas que querem explorar a região do Vale do Javari de forma ilegal. Dois meses antes de ser morto, Bruno havia denunciado seu algoz, Amarildo Costa de Oliveira, o “Pelado”, por lavagem de dinheiro junto a narcotraficantes.

No documento da União dos Povos do Vale do Javari (Univaja) enviado para o Ministério Público Federal de Tabatinga, Amarildo foi apontado como um dos autores dos diversos atentados com arma de fogo contra a Base de Proteção da Funai, entre 2018 e 2019, local onde Bruno ministrava cursos aos indígenas.